segunda-feira, 22 de abril de 2013

O HOMEM PÚBLICO (prosa - Jan)

  Ângela sonhou que estava ao lado do pai enfermo velando seu sono induzido pela medicação sedativa: seu estado era terminal e era tremendamente angustiante saber que havia uma multidão lá fora... as pessoas queriam vê-lo, confortar familiares ou simplesmente saber do seu estado de saúde, pois o pai de Ângela era um homem público.
Sobressaltada, Ângela acordou e percebeu que o sonho não fora mau nem bom: apenas um sonho, durante o sono rápido e mal dormido, ao lado do corpo sem vida do pai, que nunca fora um homem público.
Da sala contígua vinham vozes de pessoas amigas que, com a família, passavam a noite velando o corpo. Ângela sabia que sua mãe estava deitada na única cama da capela mortuária que alugara e que seus irmãos estavam ao lado dela sem terem conseguido conciliar o sono.
No recinto onde estava o corpo do pai, Ângela estava sozinha. Sempre lidara bem com a morte, embora nunca a tivesse visto de tão perto. Aproximou-se do caixão e ali, em pé, pôs-se a observar atentamente aquele corpo sem vida: não era mais o seu pai, mas era o corpo do seu pai e pareceu-lhe que "nunca mais" era muito tempo.
A tristeza transformou-se em lágrimas de dor na noite fria de final de inverno.
Ângela estava recomposta quando a luz da manhã venceu a escuridão da noite. Vieram muitos amigos e um padre fez as orações de praxe.
Rumo ao cemitério, a fila de carros atravessou vagarosamente a cidade sob a chuva fina.
Quando o corpo baixou à sepultura, novamente Ângela deu vazão às lágrimas, enquanto repetia baixinho:
- Nunca mais!
Quando se voltou para ir para casa, um amigo a abraçou, dizendo:
- Eu gostava muito do seu pai.
Ela não saberia dizer se foram aquelas palavras ou o aconchego daquele abraço ou se, ainda, as duas coisas que, juntamente com a fé ensinada e cultivada pelos pais, tivessem lhe dado a certeza de que o pai não estava naquela terra molhada e sim num lugar bonito, florido e seco. Aquela certeza veio como um bálsamo em meio à tristeza de Ângela.
Chovia mais forte. Agradecida pela presença daquele amigo, Ângela correu até o carro.
Certamente, ainda sentiria saudades do seu pai e choraria. Mas o sofrimento ficara bem mais leve.
Olhando o monumento que representava duas mãos postas apontando para o Céu, Ângela se lembrou do sonho que tivera e questionou:
- Será que, se meu pai fosse um homem público e alguém me dissesse baixinho que gostava dele, este fato teria tido o mesmo efeito benéfico em mim?
Disfarçou um sorriso que, certamente, não seria compreendido naquela hora e, em pensamento, Ângela agradeceu ao Pai do Céu pelo seu pai terreno ter sido sempre um ilustre desconhecido e por Ele ter lhe proporcionado alguns momentos de felicidade em um momento reservado à tristeza.
Lembrou da oração que Jesus ensinou:

 "Seja feita a Vossa vontade".

- Amém!


Um comentário:

  1. É triste, mas geralmente pessoas públicas não são muito consideradas e há sempre a desconfiança da veracidade de uma declaração de sentimento. Nunca se sabe se ela é verdadeira ou se pessoa fala para chamar a atenção, ou simplesmente se iludiu com a imagem que pessoa passou por sua vida e nem era ela.
    Os anônimos, que fazem o que consideram pouca coisa, podem fazer diferença para toda uma vida.

    ResponderExcluir


Gostou ?????