sábado, 1 de junho de 2013

OS LIVROS EM MINHA VIDA (texto em prosa - Jan)

Eu tinha, naquele começo de tarde de abril de 1996, quarenta e seis anos. Fui para casa sem olhar para a minha sala, no andar térreo do edifício e sem saber que jamais voltaria a trabalhar ali.
Depois de meses de licença, fui aposentada por invalidez e o neurologista me “receitou” uma cadeira de rodas... eu fiquei desesperada, pois estava determinado, documentado e comprovado: eu me transformara numa pessoa inválida... e a depressão tomou conta de mim.
Os meus filhos ficaram desesperados e eu mais ainda por vê-los naquele estado. Os três “meninos” se fizeram presentes e me deram presentes, dos quais o mais significativo foi um computador, pois eu já não podia manuscrever.
Amigos iam me visitar e muitos levavam livros: emprestavam-me ou presenteavam-me. Certa vez um livro veio com um marcador de textos de um metal qualquer e eu ouvi a explicação bem humorada:
“- O marcador de textos é presente, mas o livro é só emprestado.”
Eu nada sabia sobre a vida da famosa escritora e fiquei curiosa. Apoiei o livro sobre as pernas, abri com dificuldade, mas:
- Que transtorno!
Esbravejei porque as letras “dançavam” diante dos meus olhos, fazendo com que eu começasse  a ler numa linha e terminasse em outra, de modo que nada fizesse sentido. Mas eu ouvi minha própria voz esbravejando e me policiei... e pensei que já havia vencido outros transtornos.
Então eu segurei o marcador no sentido horizontal e fui colocando-o sob cada linha, de modo que as letras não podiam “sair” do lugar. Quando eu chegava ao final de uma linha, adotava o mesmo procedimento para a linha seguinte e, depois de quinze minutos, eu havia lido uma folha.
- Uma folha só? Quanto tempo eu levarei para ler o livro todo?
Desanimei. Já era tarde. Fechei os olhos e deixei o livro pra lá. Tomei um antidepressivo e dormi.
Era quase a metade do dia seguinte quando acordei. Lembrei do livro e da minha amiga afirmando que eu gostaria dele e pensei que não pretendia sequer lê-lo.
Mas eu me perguntava como teria sido a vida da famosa escritora... E recomecei com o mesmo procedimento, improvisado, do dia anterior... Era desanimador, mas eu sou teimosa e um mês depois, ao terminar aquele livro, as letrinhas já não “dançavam” mais.
Enquanto isto, o Terapeuta Ocupacional insistia para que eu usasse o computador.
Causava-me um enorme desgosto  “catar milho” l e n t a m e n t e. Um dia ele pegou aquele livro, abriu-o, deixou-o ao lado do computador e disse que eu tentasse copiar.
E eu tentei. Juro que tentei. Só que me faltava motivação, porque por mais interessante que fosse o livro, já estava pronto... Eu até já tinha lido!
A esta altura eu já morava numa casa apropriada para pessoas com dificuldade de locomoção... Eu? Eu.
Muito contrariada a princípio, eu me comunicava através do computador. E fui tomando gosto. Mas, gosto mesmo eu tomara pela leitura e comprava livros pelo computador. E lia, lia, lia...
Eu já não tomava remédio contra a depressão.
Um dia comecei a digitar um texto: num dia eu registrava o que me lembrava da minha vida, desde o meu nascimento e, no dia seguinte, o que me acontecia no presente. Eu procurava pôr as lembranças em ordem cronológica no papel, pensando que um dia os acontecimentos passados e presentes se encontrariam ali...
O arquivo com o tal texto foi ficando grande e assim nasceu o É ASSIM, o primeiro livro que escrevi. Nenhuma editora se interessou, então eu editei-o de forma independente: - que dificuldade!
Como eu tinha algumas poesias feitas e engavetadas e, em paralelo, alguns assuntos já “resolvidos” sobre os quais eu não sentia vontade de falar, uma pequena parte do É ASSIM é em verso.
Eu sempre gostei de escrever e o que escrevia sempre agradou a todos mas, além dos escritos a que me obrigava o trabalho, eu sempre me limitara a bilhetes e cartões...
Enquanto escritora, abracei a causa das pessoas que, assim como eu, são PPD.
Toda pessoa que quer ampliar seu mundo lê muito e eu leio ...leio... leio... mas é difícil manusear um livro.
E escrevo, bem devagar, “catando milho”.

Entre leitura e escrita, eu sonho e traço planos para o futuro...

4 comentários:

  1. Emocionante esse relato...

    Oi Jan,

    Sim recebi um email, para enviar um texto meu.

    Respondi o email

    Bjos

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  2. Jan, em um mundo em que ainda há tantas barreiras contra as pessoas com dificuldades de locomoção, você é uma GUERREIRA!
    Adorei conhecer um pouquinho mais sobre sua história e sua garra, sua gana de viver, meus parabéns!
    Abraços de quem sempre dá uma passadinha no ASSIM, ASSIM pra tomar um cafezinho...
    Marina

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  3. Jan, que persistência! Parabéns!
    Eu não sabia que tinha um livro. Entre tantas dificuldades dos autores independentes, é muito gratificante.
    E que venham muitos planos para o futuro!
    Beijo

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  4. Parabéns pelo seu relato Jan!!! Entre tantas dificuldades que você conta que passou em sua vida, a sua persistência e a sua coragem diante dos problemas é muito encorajador para todos nós!!!
    Um forte abraço pra vc

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