segunda-feira, 9 de setembro de 2013

HISTORINHA DA MINHA HISTÓRIA - texto em prosa - Jan

Numa determinada fase da vida, eu estava estudando muito pra um concurso do ‘falecido Banestado’, quando uma amiga me incentivou a fazer inscrição pro concurso do TRT. Ponderei que não sabia nada sobre direito... Por interferência do então marido dela, um Juiz, presenciei a última aula de um cursinho preparatório, ministrado por ele e um advogado trabalhista.
'Suguei' o máximo que consegui daquela aula, li o edital do concurso, comprei uma CLT comentada e fiz a inscrição no último dia...
Tive o privilégio de escolher entre dois empregos e optei pelo Tribunal.
Entrei para o Tribunal quando minha vida pessoal estava um caos...
Então, sentindo-me mais capaz, tive dignidade suficiente para mudar completamente os rumos da minha vida.
Depois de alguns meses, mudei... Inclusive de casa.
E aí eu aprendi muito. Digamos que me encontrei.

Um dia, quando trabalhava no Serviço de Acórdãos, fui levar o Edital de Publicação para a então Diretora da Secretaria Judiciária  assinar... Ela deu uma olhada no papel, deixou sobre a mesa e perguntou por que eu não fazia direito. Perguntei o que havia de errado ali. Ela riu de mim:
-“Estou falando em Faculdade de Direito.”
Eu estava cursando Ciências Econômicas. Pensei... Repensei... E percebi que meu principal motivo pra não fazer Direito era pessoal e referente ao caos já mencionado...
Por outro lado, a Faculdade de Direito tinha tudo a ver com o trabalho desenvolvido no TRT.

Passar no vestibular da FDC foi deslumbrante e quase inacreditável.
-Eu???? Eu...
Estando na faculdade, eu aprendi muito sobre a vida em geral... e muito mais sobre Direito.
Durante todo o curso tive muito apoio de colegas de trabalho e alimentei o sonho de ser Juíza do Trabalho. Quando terminei o curso senti-me eufórica e vitoriosa como se tivesse ganho um presentão de mim mesma.
Eu crescera diante de mim!
Concluída a Faculdade, fiz novo concurso para o próprio TRT... fui aprovada e ascendi para uma carreira que exigia nível universitário. No ano de 1995 viajei e fiz concurso para Juiz do Trabalho em várias capitais, e cheguei perto mas não cheguei lá. Felizmente não, pois eu não teria ultrapassado o período probatório de dois anos...
Comecei a sentir dor nas pernas e nos quadris, mas achei que era só cansaço. Parei de tentar ser Juiza.
Eu fechei aquela porta e abriu-se uma nova janela: fui nomeada Diretora da então Secretaria Judiciária. Foi por pouquíssimo tempo.
Eu vi a doença se aproximando devagar... E foi uma experiência terrível!
Lembro de uma vez em que o caixa de um posto da CEF, instalado dentro do Tribunal, surgiu ao lado da minha mesa, mostrando um cheque:
-“É sua assinatura?”
- É...
-“Então, vamos ali mudar sua ficha.”
Eu fui com ele e vi a assinatura... Quanta diferença!!! Fiquei horrorizada!!!
E mais: o degrau na entrada do prédio nº 147 da Vicente Machado ficava cada dia mais alto... As salas ficaram enormes... A rua ali em frente foi ficando muito larga e os carros corriam demais... Os buracos transformam-se em crateras... E o chão foi ficando a cada dia mais escorregadio...
Um dia, catei os cacos da minha dignidade, requisitei o braço de um colega de trabalho (meu filho) como bengala e fui ao 10º andar, chamei o Juiz Presidente e o Diretor Geral e disse:
- Façam o que quiserem comigo... Não consigo mais. Vou pra casa!!!! O Juiz Presidente me olhou assustado e perguntou se eu queria o carro dele emprestado...

Depois daquele episódio, tirei uma licença médica que, de tão longa, acabou se transformando em aposentadoria por invalidez... Foi uma queda e tanto. Mesmo tendo passado por esse “perrengue”, nunca me esquecerei dos colegas/amigos que me deram força nesta transição de vida:
• da MB, que ia lá na minha sala e dizia “- almoça comigo!!! Eu corto seu bife.”;
• da L, segurando meu braço pra subir aquela escadinha pro térreo;  • do RW assinando e indo despachar por mim;
• da MP me acompanhando ao hospital e apoiando o Duda;
• do ZS me segurando na frente do tribunal, impedindo que eu me arrebentasse no chão;
• da C, me acolhendo no colo literalmente e em silêncio (fiquei de cama mmmmuito tempo) enquanto eu chorava e lamentava...;
• da A, levando a pequena filha de poucos meses, pra que eu a “visitasse”;
• da A (então na “comunicação”) dando a maior força, quando resolvi escrever e lançar um livro;
• do CSC, prestigiando o lançamento do meu 1º livro.
• de todos que trabalhavam comigo no chegando naquele evento;
• da C, sentada nos meus joelhos (cadeira de rodas) me dizendo baixinho: -“dessa vez eu pensei que você sucumbiria... Mas você é foda, hein!?”.
Hoje consigo ver que tudo me ajudou muito a conviver com as necessidades especiais que caracterizam a minha aposentadoria.

Foi muito gratificante encontrar a amiga MP e ouvi-la dizer que está curada do câncer que a atingira neste ano de 2011 e dizer com a costumeira auto-estima contagiante que só vai parar de trabalhar quando for propício... Então fizemos um “pacto” de vivermos ainda por muito tempo;-)

Mas, acreditem...
Nada, mas nada meeeesmo, supera a alegria de uma mãe, que 12 ou 13 anos depois, sai do elevador no 10º andar, do nº 147, da Av. Vicente Machado, segue a plaquinha “Direção Geral”, e é recebida por um dos seus filhos e pela amiga C, que trabalha diretamente com ele.

Meu filho não é mais Diretor Geral e a C está aposentada.
Mas...eu vi... eu vivi aquele momento!!!!

4 comentários:

  1. Oi Jan,

    Que história hein?
    Te desejo saúde sempre...

    Gostei de passar por aqui...

    Obrigada pelo carinho!

    Abçs

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  2. Olá!Bom dia
    Jan
    ...vc sabe que eu gosto de comentar e comentar,muitas vezes,"pagando"micos,brincando, sério etc etc, mas dessa vez , só me resta aplaudir e ficar emocionado com sua "historinha da sua história ", uma verdadeira guerreira... com um sentimento que prezo muito: a gratidão!
    Parabéns!
    ...faz tempo q estava "devendo" à "nossa" biblioteca, então,coloquei um link para cá, na minha série Divulgação de blogs de hoje.
    Meu carinho
    Belo dia
    Beijos

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  3. JANA, ESTOU AQUI EMOCIONADÍSSIMA COM SEU TESTEMUNHO DE VIDA! Nem sei mais o que acrescentar, tão rica experiência lida! Só fica no ar um enorme respeito por ti e meu carinho! Um abração!

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  4. Olá Jan!

    Venho por indicaçao do querido amigo Felisberto e estou aqui super emocionada pela historia e a incrivel experiencia!

    Parabens pelo blog!

    Um abraço!

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