terça-feira, 29 de outubro de 2013

CRÔNICA DUMA CORRESPONDÊNCIA Texto de Calu - garimpado no blog da autora, na blogosfera

Crônica duma correspondência










Fui incumbida duma tarefa; na verdade eu aceitei o pedido de meu filho em ir até aos correios para saber o que havia acontecido com um pacote dado como entregue, porém sem isto ter acontecido.Apesar dele ter rastreado os caminhos da encomenda e comprovado sua entrega no endereço confirmado, a dita cuja não havia chegado.Lá fui eu pro posto saber o que tinha ocorrido.Munida da documentação, expliquei tudinho pra funcionária, que leu as guias, olhou na tela e me disse:__ A senhora tem de perguntar pro carteiro da região.Tá aqui o telefone dele.É só ligar.

Saí do guichê, com aquele papelzinho na mão meio descrente sobre o que faria a seguir.A fila que se encompridava até a porta da agência não me animava a encará-la de novo.Seria isto mesmo? Eu teria de ligar pro carteiro e perguntar onde ele havia entregue a encomenda que não chegara?EU?

Enquanto caminhava pela rua fui imaginando como perguntaria tal fato sem ofender o carteiro e meus passos me levaram a uma pequena cafeteria.Sentei-me pensativa.Pedi desta vez um chá que caía bem naquele dia ventoso e ao degustar o sabor e o aroma conjugados naquela infusão me recordei do tempo em que eu sabia o nome do carteiro da minha rua e sempre trocava dois dedinhos de prosa com ele ao nos cruzarmos na entrada do prédio que eu morava.Nada de maior nota, apenas comentários passageiros sobre o tempo, sobre o movimento da rua, e era só, porém eu me achava próxima daquele agradável senhor encurvado sob o peso da mochila abarrotada de cartas e afins;portador de esperanças, de compromissos, de boas e más novas, de possibilidades...aquele que leva o mundo, mas não vai lá__ verso duma canção que procura definir a função deste trabalhador silencioso, quase invisível por quem mora em prédios, mas não só, porque hoje em dia, mesmo quem mora em casas pouco ou nunca vê o carteiro da sua rua. 

Tomei consciência de como é difícil a vida dos carteiros.Percorrem distâncias enormes carregando ou puxando o peso das correspondências do dia e nem recebem um cumprimento ou um sorriso, um elogio, ao contrário só são interpelados com cobranças sobre a realização do seu trabalho, se foi eficiente ou não e, eu iria engrossar a lista dos cobradores irritados com a falha técnica.Me recusei.Liguei pro filho, expliquei o que acontecera, fiz-lhe recomendações sobre como deveria se dirigir ao carteiro e dei por encerrada a minha missão.

Antes de pegar o carro no estacionamento subi ao apartamento do filho para dar muitas beijocas na netinha e qual não foi minha grata surpresa ao chegar na portaria e encontrar o carteiro entregando a encomenda endereçada a meu filho.Cumprimentei-o, desejei-lhe um bom resto do dia e peguei o elevador toda sorridente com a providência fortuita do destino. 

Assumo minha camada nostálgica e dela me orgulho no que se refere aos bons modos hospitaleiros que já puderam ser vivamente praticados quando as cidades ainda favoreciam os encontros despretensiosos entre as gentes de sua convivência.

2 comentários:

  1. Calu nos encanta sempre com suas palavras e escritos! Adoro seu blog e deixo aqui beijos às duas,chica

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  2. "Brigadão", Jan, por tua gentileza sempre acariciadora do meu coração.Fico toda-toda em fazer parte deste blog de gente bamba.
    Bjos,
    Calu

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