quarta-feira, 7 de maio de 2014

AMIGA DE INFÂNCIA - do livro OI, BICHO! Jan


I–AMIGA DE INFÂNCIA

Pouco tempo antes do meu nascimento, minha mãe foi presenteada com uma fêmea de grande porte, mestiça de Pastor Alemão. Ter convivido com aquela cadela semeou, em mim, simpatia e respeito pelos bichos. Aquela semente ficou germanando no meu subconsciente por muito tempo.
Foi mais ou menos assim:



A GRANDE VIAGEM

O sol já ia alto quando o trem de ferro puxado pela locomotiva a vapor chegou à estação da pequena cidade e, ali parado, mais parecia um grande bicho de ferro resfolegando de cansaço.  
Mariazinha estava ansiosa e desembarcou segurando fortemente nas mãos dos pais.
Com a menina sempre posicionada entre o pai e a mãe, o trio familiar caminhou pela plataforma de concreto, atrás do homem uniformizado que esperara por eles, dependurado na portalateral de um dos vagões de carga:
—“É aqui!”.
E foi abrindo a porta. O pai de Mariazinha ajudou a puxar a grande caixa com buraquinhos redondos nos lados, abriu-a e chamou:
—“Baronesa!”.
A grande cadela saiu da caixa e respirou entre aliviada, assustada e cansada:
       —Ufa! Ar puro! Onde estou???? Que calor!
De repente ouviu-se uma voz autoritária:
—“Venha cá Mariazinha!”.
Tendo soltado da mão da mãe, os braços da menina Mariazinha já envolviam o pescoço da cadela num forte abraço.
Ambas contavam pouco mais de dois anos de idade, mas Mariazinha ainda era pouco mais do que um bebê, ao passo que Baronesa já era adulta, o que fazia com que a grande cadela parecesse ainda maior aos olhos da menina e de quem mais visse a cena.
Ao desfazer o abraço, Mariazinha levou a mão à frente do próprio nariz, num gesto significativo, falando:
—“Iiihhh! Fidida!”
A mãe de Mariazinha interveio, dizendo:
—“Logo que nos acomodarmos na casa nova, ela vai tomar um bom banho.”
Então, o trio iniciou nova caminhada, desta vez seguidos de perto pela “fidida” e alegre cadela, que dizia a si mesma:
       —Ainda bem que o meu pessoal está comigo.
Em seguida, Baronesa assustou-se ao ver o “pessoal” acomodar-se em uma caminhonete:
       —Será que vão me deixar aqui sozinha????
A grande cachorra sentiu-se aliviada e agradecida quando foi autorizada a entrar também. Acomodou-se na pequena carroceria ao lado do dono, firmemente segura pela coleira, numa posição privilegiada de onde podia ver Mariazinha sentada entre a mãe e o motorista e, ao mesmo tempo, a paisagem do caminho.
Sentiu prazer no ar a entrar livremente por suas narinas à medida que o veículo avançava por uma estrada de terra que levava para... isso pouco importava para Baronesa, que se sentia segura com sua família humana.
Finalmente chegaram ao destino. Havia bastante espaço e Baronesa foi acomodada em lugar apropriado. Depois do banho, sacudiu as gotas d’água que escorriam por seu corpanzil e dormiu...
Ao acordar, espreguiçou-se e levantou sacudindo tudo o que ficara para trás. Então sentiu-se pronta para viver cada dia por vir.
Logo depois, foi espiar a porta de entrada da nova casa do “seu pessoal”. Baronesa já aprendera que ali era território dos humanos e o respeita assim como seu território é respeitado, mas está curiosa.
Mariazinha veio até ela, acariciou a cabeça da cachorra, depois bateu o pé no chão e falou, usando toda a energia disponível em uma criança pequena:
—“Ati não!!! Fola Baiesa!”
Obediente, Baronesa se afastou e seu faro apurado reconheceu o cheiro familiar... a cara dela escondia um risinho que oscilava entre irônico e compreensivo:
—Ah! Os humanos tem um cheiro esquisito!


Passado algum tempo, Baronesa teve filhotes e eram tão bonitinhos! Ela os acarinhava, alimentava e protegia.
         À medida que os filhotes cresciam, Baronesa foi se ocupando menos deles, até que eles se foram e a cadela não demonstrou tristeza. A “semente” estava lançada...
Baronesa viveu até seus 12 anos. Ver seu corpanzil sem vida sendo levado foi minha primeira oportunidade de lidar com a sensação de perda.
Graças aos exemplos da Baronesa, hoje posso ver que nossos filhos são capazes de  viver suas próprias vidas e também que, perdas doem e podem trazer lágrimas mas não devem gerar desespero nem pânico.

Acredito que aquela cadela tenha sido posta por Deus ao meu lado para que eu observasse algumas de suas atitudes básicas diante da vida.

Um comentário:

  1. Se gostei? Adorei! Os animais estão presentes na minha vida desde o meu nascimento também, essa história me fez lembrar do Max, um fila brasileiro, que me acompanhou desde o meu nascimento até uns 6 anos da minha vida. Minha história não existe sem latidos, miados e canto de passarinho. Realmente esses presentes colocados em nosso caminho nos ensinam a enxergar a vida, a viver!

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