quinta-feira, 22 de maio de 2014

O MENINO QUE ROUBOU LIVROS - texto de Ana Paula, garimpado na blogosfera

O menino que roubou livros

Não havia expectativa alguma. Nada de material novo, mochila, cadernos, caneta para a volta às aulas.
Já sabia de antemão o que encontraria - uma escola sucateada.
E não foi diferente. Foi pior, mas por estudar à noite, os olhos nem se esforçaram por ver o quebrado, o pichado, o destruído.
Mas, havia sim uma esperança módica de que alguém, um professor ou professora de língua portuguesa, literatura, não se assustasse, não temesse ficar na escola dando a aula de que mais apreciava. Tão difícil era um professor permanecer ali...

E a esperança parca ganhou brilho e volume. Um jovem professor, Luís Fellipe, abraçou o desafio.
Não se importava em dar sua aula para três ou quatro jovens que ficavam ali na frente enquanto os outros faziam qualquer outra coisa que não fosse estar na aula.

Assim, o professor, em poucas semanas, inflamou o amor pelos livros, pela literatura no jovem.
Final de semana era difícil ficar na comunidade, nome bonito que em nada modificava o significado de um barraco na favela.
Numa tarde de tédio, foi andar num shopping. De lá iria direto para a aula à noite.
Não foi. De lá foi direto para a cadeia.
Roubou livros na grande e famosa livraria. Num ato insano, onde tédio e desejo se misturavam, pegou quatro títulos e colocou na mochila.
Na saída foi abordado. Cumpriu-se o protocolo de segurança.

No tempo em que aguardava julgamento, alguém o viu chorar e enxergou um brilho diferente em suas lágrimas.
Precisava saber do acontecido. Entregaram-lhe um jornal que relatava o ocorrido.
Pouco, era muito pouco o que a matéria dizia. Matéria aliás que nem deve ter sido lida, afinal perder tempo com mais um jovem que rouba?
Ele perderia, estava disposto a isto.
Falou com amigos, foi até à escola, voltou lá à noite, ouviu do professor de literatura exatamente o que imaginava ter lido nas lágrimas do rapaz.

No dia do julgamento, o dono da livraria, que à época estava em viagem internacional, deu o seu depoimento. Foi duro e correto ao afirmar que nunca o jovem deveria ter cometido o roubo, mas ele foi conhecer a escola em que o jovem estudava, a sua moradia, questionou sobre bibliotecas e entendeu o anseio do jovem por um livro.

A pena de reclusão foi revertida para uma medida sócio-educativa. Saiu do tribunal empregado na grande livraria. Abaixou a cabeça e chorou novamente.
Trabalharia no estoque e a depender do seu desempenho teria outras oportunidades. Junto ao primeiro salário, recebeu o cartão vale-cultura. Estava ainda indeciso de compraria o livro ou assistiria ao filme "A menina que roubava livros". Agora tinha possibilidades.




*Amigos queridos da blogosfera me inspiraram a escrever esta crônica que é baseada em fatos reais e é realmente como eu sonho que poderia ser o desfecho dela.

PS. Dois anos se passaram, e numa tarde o professor Luís Fellipe entrou na livraria. Prontamente atendido pelo jovem que fora seu aluno e agora já trabalha sob os holofotes das prateleiras abarrotadas da sua mais pura paixão, tiveram tempo para um café.
Desta vez foi o jovem que viu uma lágrima com um brilho diferente descer pela face do professor.

2 comentários:

  1. Oi Jan! Encontro este texto aqui exatamente no dia em que leio a coluna do Ruy Castro para a Folha de S.Paulo onde ele cita um caso também de delinquência que foi noticiado em fevereiro e ele queria saber o desfecho. Perguntou até para o famoso sabe-tudo Google e não havia nada. Fica por conta da nossa imaginação esses desfechos...
    Beijo!

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  2. Jan,
    tive a oportunidade de ler esta página magnífica quando da sua criação.Como antes, agora, fico enlevada com a tamanha sensibilidade da Ana Paula.
    Imprescindível partilha.
    Um bjão às duas.
    Calu

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