sexta-feira, 23 de maio de 2014

OUTRAS INFLUÊNCIAS - mais um capítulo do livro OI,BICHO! - Jan

V – OUTRAS INFLUÊNCIAS


Eu e meus pais tínhamos nos mudado da fazenda do interior de São Paulo para uma cidade do interior do Paraná.
Não lembro como o cãozinho Banzé chegou lá em casa e nem por quanto tempo ficou, mas lembro-me daquela coisinha peluda fazendo bagunça e sujeira pela casa. Na época, eu era adolescente e estava vivendo nos conturbados anos 60... Talvez por essa razão, pouco me importava com aquela criaturazinha. Um dia, ao chegar à casa, fui avisada:
—“O Banzé fugiu!”. 
......

Ainda na adolescência, tive contatos com o Moroti, um cãozinho de uma tia, cuja casa eu frequentava quase diariamente.
Moroti era um tormento para a adolescente que então eu era, pois ficava feliz e queria brincar comigo dentro da casa, mas na saída mordia meu calcanhar...
......

      A vida não deu oportunidades para que eu cultivasse boas lembranças de cachorros pequenos e, eu dei poucas oportunidades a eles.
Uma das influências mais marcantes que trago daquela época é do grande Lunick, um Cão Pastor Alemão enorme, de propriedade de uma amiga íntima da minha família, que me deu um grande susto, narrado no texto a seguir.

O GRANDE LUNICK

Lunick estava esparramado na grama do jardim quando escutou o som rotineiro e familiar do carro de sua dona adentrando o portão do caminho que levava à garagem.
O grande cão veio abanando o rabo, sem perceber minha presença e eu sequer o vi quando saí do carro. Lunick encaminhou-se para meu lado, com cara de poucos amigos...
A dona dele falou, procurando usar um tom calmo, para que eu ficasse parada. Nem precisaria, pois eu já estava paralisada mesmo!
Aquele cão ficou em pé com as patas dianteiras apoiadas no meu ombro e ‘face to face’ comigo. Então eu vi, bem de perto, seus grandes dentes afiados e pude sentir seu bafo exageradamente próximo de mim. Senti seu focinho gelado me cheirando e aquele peso enorme sobre meus ombros. Senti também todo o potencial de obediência e respeito que pode ser desenvolvido em um cão, quando sua dona ordenou que ele me deixasse, usando um tom firme e autoritário na voz.
Lunick saiu dali visivelmente contrariado e preocupado. Entretanto, obedeceu e dirigiu-se ao seu amplo canil onde, respeitosamente, esperou ser trancafiado.
Respirei aliviada e, passando pela frente do canil, entrei na casa.
Depois de algum tempo, me despedi dos moradores humanos da casa e, passando pelo canil, saudei, de longe, meu novo amigo.O grande cão olhou diretamente para mim, curioso e com cara de:
—“Não é a mamãe!”

Tempos depois, Lunick comeu uma bola de carne recheada com vidro moído, atirada por sobre o muro que cercava o quintal. O fato aconteceu durante a noite e, na manhã seguinte, o cão foi encontrado sem vida...
Aquele cachorro chamou minha atenção ao avançar sobre mim e assim me ensinou, na prática, que desrespeitar o limite alheio é muito perigoso!
A morte prematura do Lunick me fez ver que não devemos sucumbir à nossa própria ganância e, ainda, que a maldade humana pode ser tão sutil quanto fatal.

Hoje acredito que cada pedra em que tropeço é uma chamada de atenção.

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